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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Frutos da indiferença: o caso do tráfico de drogas no RJ

Neste mês comemoramos algo que não ocorria há mais de 30 anos nos morros do Rio de Janeiro: a ocupação de dois grandes complexos de favelas que eram consideradas, mais do que meros pontos de boca de fumo, um estabelecimento matriz do mal que é o tráfico de drogas carioca. Os números das apreensões são impressionantes: mais de 40 toneladas de maconha, mais de 130kg de cocaína, 50 fuzis, e por aí vai. Isso sem falar no luxo oculto dos chefões do tráfico, em apartamentos melhores, mais bem mobiliados e mais bem decorados que muita habitação do Leblon. Ou seja, o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro eram um mundo a parte, e o Estado não fazia parte deste mundo.

Há 30 anos, os favelados sofrem com a escassez da educação e com a falta de oportunidade, pois não houve, nestes anos, qualquer interesse nas suas qualificações e iniciações profissionais, tendo eles de depender apenas dos seus próprios instintos e dos seus escassos conhecimentos para sobreviver. E nós sabemos: na selva, vale tudo. E assim aconteceu. Muitos começaram no crime, evoluíram para traficantes de drogas, e criaram corporações do mal - verdadeiros conglomerados do crime organizado, a serviço dos próprios criminosos e de suas comunidades, ocupando o espaço que o Estado não ocupava.

Agora, uma reflexão é necessária. Chegamos ao ponto de fazer guerra contra a própria pessoa humana, quando o Estado, que deveria servir a esta pessoa humana na luz dos princípios mais básicos (subsidiariedade, solidariedade e dignidade da pessoa humana), não o fez, e criou seres tão selvagens e frios quanto animais.

Os moradores das comunidades, em momentos de grande lucidez, concederam ao BOPE - divisão especial estratégica da polícia militar carioca - todo o tipo de suprimento - água, café e comida - demonstrando que não é o bem próprio, através das corporações do tráfico, que as pessoas dali desejam, mas sim o bem comum através do Estado que, embora completamente ausente nestes anos todos, é o que ainda estas pessoas acreditam. Pois só resta a elas acreditarem nisto.

Se houver agora uma maior integração do Estado com estes morros, que estão acessíveis e ocupados. Se parte da população carioca colaborar não comprando as drogas que estes traficantes vendem, seremos capazes de começar a falar em dignidade da pessoa humana e de cultivar o que é mais valioso que qualquer coisa dentro daqueles morros: as vidas que lá vivem.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As perguntas que ninguém sabe responder do que ocorre no RJ

Senhoras e senhores, visitantes deste blog de política. Mais do que nunca, a luta pelo bem comum é também a luta pela verdade, principalmente quando esta se relaciona com o bem estar de cada brasileiro ou brasileira. Por isso, quebro, neste momento, o protocolo de perfil acadêmico deste blog, para fazer questionamentos que realmente necessitam serem esclarecidos em relação à ação do dia de hoje na Vila Cruzeiro, na cidade do Rio de Janeiro.

1. Pelo que parece, tudo começou pela rejeição, dentro da Vila Cruzeiro, por rejeição de traficantes em relação a uma pequena UPP. Uma UPP foi razão para que toda a cidade sem exceção fosse alvo do vandalismo da carbonização de automóveis?

2. Quando ocorrem ações de facções poderosas do crime organizado, e aqui somente vejo duas com condições de fazer tamanho estrago - Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital -, normalmente costumamos ver rebeliões em penitenciárias, bandeiras dos comandos, qualquer tipo de sinal que indique quem realmente está cometendo a ação. Apesar do histórico exibicionismo de ambas as facções, nenhuma se pronunciou até o momento e nenhuma demonstrou qualquer ato que chamasse a atenção. Não ocorreram sequestros, nem qualquer tipo de ordem de fechamento de comércio, que é o limite dessas facções, que são limitadas ao seu poder interno de comando das áreas de favela, não são maquinas de guerra e nem possuem conhecimento estratégico para tal.

3. A operação era na Vila Cruzeiro, onde se encontravam os bandidos, segundo a inteligência. Ao mesmo tempo vários carros eram incendiados em TODAS as zonas da cidade, sem exceções. Ao momento da ação foram cerca de 40 que já haviam sido carbonizados. Até o momento já foram 70 carros carbonizados, ao menos 5 apenas nesta noite.

4. Para quem acompanhou ao vivo a situação, após a invasão da Vila Cruzeiro, quando os traficantes subiram o morro e fugiram, pela mata, para o Complexo do Alemão, algo muito estranho aconteceu. Se o objetivo era capturar os bandidos, em primeiro lugar, não fecharam o Complexo do Alemão para isso, lugar presumido como óbvio para a fuga dos bandidos. Em segundo lugar, o helicóptero do BOPE estava ACIMA dos bandidos, que estavam fugindo armados de fuzis (logo resistindo à prisão) e NÃO ATIRARAM, nem com fuzis, nem com bombas de efeito moral e nem com granadas para dispersar o caminho dos bandidos. Com todo o respeito à instituição, mas me pareceu que o BOPE não estava realmente interessado na captura dos bandidos, mas sim na ocupação da Vila Cruzeiro, razão pela qual, não buscaram os fugitivos, que, neste momento, se não forem completamente estúpidos, devem estar bastante longe do Rio de Janeiro.

São questões que precisam ser respondidas, pois, de fato, não só a reação do Estado foi maior, mas também o estopim dos bandidos foi atípico. Hoje sabemos que as milícias são realmente uma realidade e que elas são, comprovadamente, utilizadas para fins eleitorais, como foi comprovado no caso do deputado estadual carioca Cristiano Girão (PMN), que inspirou o personagem Fortunato, de Tropa de Elite 2. Leva-se em consideração, não somente o poder exibicionista das facções que, quando cometem este tipo de atentado contra a população, é porque querem demandar algo, que sempre fica bastante claro. Ninguém queima carros por queimar e nem por uma unidadezinha de polícia pacificadora, mas alguém mata por alguma razão policiais, como ocorreu em São Paulo, em 2006.

Aqui não me cabe fazer qualquer tipo de acusação do tipo, mas sugiro uma reflexão: "estariamos, nós, assistindo Tropa de Elite 2.1, a continuação?".