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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O BBB e o Homo videns: o homem que vê e não sabe pensar

O Homo sapiens, ou o homem que raciocina, sempre teve como característica a sua linguagem símbólica-verbal e o uso contínuo e constante de seu raciocínio para se comunicar e se informar das circunstâncias em geral, ou seja, do mundo em que vive. Isso foi continuado, sucessivamente, com a invenção de meios que aperfeiçoavam o seu raciocínio em face destas circunstâncias através da comunicação, como o jornal e o rádio. Porém, uma invenção acabou com todo o esforço linguístico e racional do homem de adquirir conhecimento: a televisão.

A televisão, ao contrário do rádio e do jornal, não tem como conteúdo principal a dialética ou a notícia, mas sim a própria imagem em si. O homem deixa, assim, de utilizar-se de meios que provocavam o seu raciocínio, para se adequar a um meio que simplesmente o deixava cômodo, que o apegava à imagem e não ao seu conteúdo descritivo. Giovani Sartori, no seu livro Homo videns (o homem que vê) afirma que o homem nunca se divertiu tanto quanto com a invenção da televisão, mas nunca foi também tão cômodo, tão alienado e tão indiferente do mundo.

A invenção da televisão, aliada com o ápice do relativismo moderno do século XX e o início da revolução sexual, iniciada nos anos 60 com a venda de anticoncepcionais, moldaram o homem de uma forma tão individual que deixaria o próprio Nietzche com inveja. A busca intensa por prazer e a indiferença no adquirir conhecimento iriam resultar numa óbvia mudança do que seria senso comum, injetando na cultura ocidental uma busca constante por satisfações temporárias, o que na maioria das pessoas iria ocorrer da forma mais preguiçosa possível, e foi assim que entrou em cena a imagem e o mero prazer em ver.

Agora a modernidade entra em uma nova fase: na desmoralização do ser, onde o corpo deixa de ter valor, a pessoa é um mero animal e as redes de televisão ganham fortunas com as preguiças e com as despersonificações dos sujeitos que participam dos chamados reality shows. É assim que ocorre com o BBB, um programa em sua 11ª edição, recomendado para maiores de apenas 12 anos, e que possui em seu meio um transexual, dois homossexuais e uma ex-atriz pornô, isso sem falar em outras mulheres que não deixaram de tirar a roupa dentro do programa. Assim, o telespectador se torna viciado na imagem e os participantes se tornam animais. O tempo é perdido, o conhecimento é zero e a contribuição para que não se busque raciocínio no futuro é total.

Essa edição do BBB, em especial, foi além nos quesitos de despersonificação. Não bastasse a tamanha promiscuidade, onde praticamente todos já se beijaram na boca, tiraram a roupa ou se embebedaram de vodka, o diretor Boninho cometeu a perversão de escolher para o programa pessoas que não haviam sequer passado em testes psicológicos, logo, pessoas que precisam de ajuda, que sofrem com desequilíbrio mental, e que são colocadas em um ambiente para desequilibra-lo e assim "animar" a trama. É uma maldade sem adjetivações humanas, é como rir de alguém que anda de cadeira de rodas. Mas o nosso senso comum não tem tantas restrições mais quanto a isso, não é?


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O perfil dionesiano do liberal relativista

No início do século XX iniciou-se um dos maiores e mais fortes matrimônios filosóficos já vistos na história. Anteriormente, o século XVIII foi vítima de uma das doutrinas mais sombrias e individualistas: o liberalismo ateu, que teve seu apogeu com a Revolução Francesa, onde seu pensamento laicista e individual causou fortes influências no mundo todo, diferentemente do liberalismo-conservador inglês, que renovavou as instituições políticas e trouxe novos ares para o desenvolvimento cultural. Pois bem, este pensamento foi aos poucos se reforçando com as "modas" dos séculos que o procediam, como o gnosticismo - a busca de Deus para si mesmo, na qual os seus praticantes, alguns à serviço da chamada New Age, afirmavam ser apenas a prática do "conhecimento espiritual" - e o secularismo - a negação militante a toda e qualquer religião, principalmente através da doutrina niilista -, mas foi no século XX que ele atingiu seu apogeu.

Paul Johnson indica no livro "Tempos Modernos" o início de uma doutrina que, a partir da teoria da relatividade de Einstein, confundiu ciência e circunstâncias humanas criando uma idéia de que nada, absolutamente nada, era relativo. Não somente o tempo e o espaço, mas também as circunstâncias, as relações humanas e (pasmem) até mesmo Deus! Era o que faltava para Nietzche dormir bem e para que Einstein, que era judeu praticante, não conseguisse se conformar com tamanha situação.

E assim, ocorria na prática o chamado perfil dionesiano, o qual Nietzche havia conceituado. Para ele, este seria um homem sem sonhos, sem caminhos, movido apenas pelo seu impulso e sua busca intensa por satisfação - seja ela riqueza, poder ou prazer - pois o que vale, segundo ele, é o homem ser o super-homem que Deus não foi, porque foi "morto". O perfil dionesiano rejeita a felicidade, aquele objetivo naturalmente humano que se busca através das relações humanas e do reconhecimento de sua dignidade, e faz isso pelo seu bem próprio. Bem do próximo? Bem comum? O que é isto para o dionesiano, afinal? Provavelmente algo sem importância e estaríamos atrapalhando o seu comodismo ocioso fazendo-o perder tempo para pensar o que seria.

Parece exagero, mas não é: o dionesiano é o relativista de hoje. Seu comportamento humano padrão é baseado no individualismo, seu apego se norteia pelo materialismo e sua religião é o liberalismo econômico, aquele que rejeita a intervenção do Estado - que está justamente para regular e para defender a pessoa humana - na economia, que é o lugar onde vão se produzir riquezas, seja de forma boa ou má. Não é maior inimigo do que o coletivista, aquele que quer utilizar-se das pessoas para proveito pessoal, mas ainda assim deve ser evitado pois a sua expressão cultural é uma violação à ética, aos bons costumes e ao objetivo social da participação e da finalização do bem comum. No fim das contas, ambos serão muito mais semelhantes do que aparentam, pois cultivam uma distância muito grande da idéia de pessoa humana.

Fontes utilizadas:
  • TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
  • NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia - Das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.
  • JOHNSON, Paul. Tempos Moderno s - O mundo dos anos 20 aos 80. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora e Instituto Liberal, 1994.